Pavões voam? Uma metáfora sobre a verdadeira beleza

Pavões não voam muito bem, e quando voam, geralmente é por questão de perigo, e precisam correr longas distâncias para alçar võo, tudo por causa da carga de plumagens, que os tornam pesados.
A compensação da natureza, porque, se de um lado, são as aves mais deslumbrantes em plumagem, por outro lado, pagam o preço na hora da voar.

Podemos extrair uma sentença moral aqui, se o pavão for tomado como símbolo da vaidade humana (em algumas concepções, realmente é assim interpretado).

Pessoas muito orgulhosas se tornam pesadas demais para se despojarem de si mesmas e alçar vôo na conquista de campos espirituais além das fronteiras do seu ego.
Por isso está escrito que o céu é dos simples.

Apesar de serem criaturas gloriosas, você não imagina como são simples os ANJOS… os seres mais belos do Universo que não vivem na frente de um espelho enamorados da própria beleza.

Quem se enamorou da própria beleza foi Lúcifer, o mais belo Anjo da antiguidade do Universo, tão belo que resolveu admirar a si próprio e alimentar a intenção de se tornar superior Àquele que o criou.
Sendo este o seu maior erro.

Vaidade não é consciência da própria beleza.

Pelo contrário, é o ofuscamento da consciência diante da própria beleza, o que imediatamente perverte o sentido da beleza em questão. Porque beleza exterior é um conceito que só tem apoio quando amparado pela beleza interior.
Quando a beleza é interior, olharemos para as criaturas mais simples e, por alguma razão que escapa à lógica dos sentidos, veremos grande beleza nelas.

Mas quando a beleza é apenas casca cobrindo uma vaidade ofuscante, por alguma razão os nossos olhos não verão beleza na criatura. Porque o que está dentro e é impuro transbordará pelos poros, e tingirá as penas do ser vaidoso de uma camada de imperfeição, e o que é belo, decairá.

A verdadeira beleza exterior precisa estar alinhada com a beleza interior.
Quando isso acontece, tudo será belo e harmonioso no conjunto, mesmo em roupagens exteriores simples.
E quem disse que a simplicidade não é bela?

Para mim, é a coisa mais bela que existe.
Agora, quem aguenta viver um minuto sequer do lado de uma criatura vaidosa que procura em cada semelhante apenas um espelho que enalteça a sua pretensa beleza?

Infelizmente – e isso foi anunciado em várias profecias – vivemos um tempo de culto extremo ao corpo, às aparências, a casca. E quanto mais se investe na casca, menos se investe na essência interior. E não existe nada mais insuportável do que a convivência com um vaso oco, rebuscado do lado de fora mas vazio internamente, sem nenhum conteúdo.

Quando a beleza vem de dentro, da alma, todo o resto se fará belo.
Caso contrário, o que é belo somente do lado de fora se tornará feio aos nossos olhos numa questão de tempo.
Porque o espelho é de vidro, e não de diamante.
E os espelhos da vaidade humana se quebram um dia. Mas não o diamante eterno da alma verdadeiramente bela…

Respondendo aos leitores
Uma amável leitora me enviou essa questão, referente ao tema do Pavão e a metáfora sobre a vaidade, publicação desta manhã:
‘Quando o amor próprio vira vaidade?’ Há uma medida pra isso?”


Respondendo,

Sobre o amor-próprio, ele deve ser cultivado dentro de uma linha de equilíbrio entre o Eu e o outro.
Quando o nosso amor-próprio se torna grande demais que perdemos a conexão com a necessidade alheia, e nos centralizamos demais, esse é um extremo.
Mas existe o outro.

Quando nos submetemos demais e nos anulamos demais em prol dos outros, que passam a nos submeter em função de nossa própria conduta exageradamente passiva, isso é outro extremo.
Como em tudo, devemos nos amar na medida certa.

Lembra o mandamento de Cristo?
Amai ao próximo como a ti mesmo?
Eu interpreto da seguinte forma:

ame o próximo e faça por ele o que deseja que ele faça por ti.

Que nosso amor próprio, então, esteja nivelado com o amor ao próximo, e nosso amor próprio ou auto-estima nos leve sempre a um trabalho de aperfeiçoamento não só por nós mesmos, mas pelos demais também.

Porque se nos tornamos melhores para nós mesmos, nos tornaremos pessoas melhores para os demais por efeito.
A vaidade é um delito que não ressoa nem com o amor verdadeiro e nem com a necessidade dos outros.
Na verdade, vaidosos estão sempre atrás de pessoas passivas que se tornem espelhos de seu narcisismo.
Isso nem de longe é amor próprio.
Porque nem amor é.

Vaidade é o foco dos sentidos sobre uma beleza ilusória, de casca, de pele, de aparência.
E seu objeto de adoração se torna passageiro.

E tudo o que é passageiro é ilusório. Quem se apega a isso, apenas está agendando sofrimento para o futuro.
A beleza real é eterna e invisível aos olhos.
E é espiritual, e quando é espiritual, se torna simples, e torna a pessoa simples e bela com seus próprios recursos naturais.

E mesmo que a pessoa não tenha nascido com beleza física, se tornará bela pelo magnetismo que sua interioridade elevada desprende ao redor.

Já o vaidoso se torna de convívio insuportável porque, cultivando só o que é externo, se torna pessoa ôca, superficial.

O vaidoso é um ser egocêntrico ilhado no próprio deslumbramento de si.
Fala-se muito que a vaidade é sadia, quando moderada.
Apenas não devemos confundir as coisas.
Cuidar de si, desejar uma boa aparência, isso não é errado, quando não se torna uma compulsão ou uma obsessão que nos torne interessados SOMENTE em aparência. Se marchamos dentro de um equilíbrio ao estilo MENTE SÃ EM CORPO SÃO, então tudo fica bem.

Mas quando excessiva, a vaidade se torna um vício, e a pessoa vai perdendo o próprio senso estético, e fica tão obcecada com aparência que pode sutilmente se tornar o oposto da beleza almejada. A vaidade começa desfigurando a mente para terminar desfigurando o corpo…

A beleza interior é modesta, discreta e não precisa de espelhos, platéias e holofotes.
Justamente aquele tipo de beleza que não interessa aos vaidosos cultivarem, uma vez que não podem usá-la para exibição nos palcos da vida…

JP em 08.10.2020

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