O verdadeiro código da Vinci muito além de Maria Madalena – parte 22 (final) – a alegoria do lobo, águia e barco

Eu deixei para o final uma das gravuras mais enigmáticas de Leonardo da Vinci.
A Alegoria do Lobo, a Águia e o Barco

Trata-se de um desenho com muitas interpretações.
Este desenho, de 1516, perto do final de sua vida, aparentemente é uma alegoria velada da Igreja.

Alguns entendem que o Barco é a Igreja (a Barca de Pedro), e que o humano lobo que a conduz, o Papa da época do desenho (Leão X), enquanto a águia é o rei da França, a quem o Papa se digiria ao encontro.

Águia coroada e o globo terrestre, simbolo clássico da realeza, e o Barco, símbolo clássico da Igreja.

O homem em forma de lobo é uma crítica direta à personalidade e forma de condução daquele barco por parte do seu condutor, o Papa Leão X. O lobo assinala astúcia, cobiça, avareza, traição… talvez a primeira análise desta obra significa o que Leonardo pensava sobre o Papa da época, e como esse Papa manobrava a Igreja (Barco) servindo os interesses do Estado (a águia) e não os interesses de Deus e do Evangelho.

Aliás, coisa muito comum entre muitos Papas, antes e depois de Leão X.

Leão X (Rafael Sanzio)

Leão X, nascido João de Lourenço de Médici (em italiano: Giovanni di Lorenzo de Medici); (Florença, 11 de dezembro de 1475 – Roma, 1 de dezembro de 1521) foi papa de 1513 até sua morte. Ele foi o último não sacerdote a ser eleito Papa. Ele é conhecido principalmente por ser o papa do início da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero por suas 95 teses e por ter sido o último papa a ter visto a Europa Ocidental totalmente católica. Ele era o segundo filho de Clarice Orsini e Lourenço de Médici, o governante mais famoso da República Florentina.
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Mas a arte da codificação está justamente em estampar, numa primeira leitura superficial, uma imagem mais simplista, de cunho político ou social que, estando em voga, domine ou mesmo oculte as demais leituras, de caráter hermético ocultista, as quais, dessa forma, se tornam camufladas debaixo daquelas leituras mais imediatas.

Enquanto isso, a mensagem secreta continua esperando pelo CERCA TROVA dos espíritos mais perspicazes.

E para estes espíritos, fica clara a imagem de uma chave ampla da transmutação alquimista nesta bela alegoria, precisa em cada detalhe.

Barco, a barca dos apóstolos, sendo que os quatro primeiros apóstolos chamados por Cristo eram pescadores, e o primeiro deles, Simão, convertido em Pedro, a Pedra fundamental da Igreja.

Apóstolos que, antes de seguirem Jesus, foram preparados por João Batista.
Foram Simão e André, e João e Tiago, dois pares de irmãos, e pescadores.
Simulando analogia com as quatro criaturas do Trono de Deus, os quatro primeiros agentes da Luz no mundo.

Os pescadores de almas, enviados de Vênus, o Santuário, o Tabernáculo do céu, sede da Fraternidade Branca.

A tradição do Peixe, vasta simbologia bíblica, do Velho ao Novo Testamento.
Condutores do Barco são pescadores de almas. E a Igreja, no seu aspecto mais elevado apenas representado na Igreja terrena, cheia de falhas e corrupção ao longo dos papados.

Uma incrível semelhança de terminologia nos nomes de João, Joannes, e os antigos deuses peixe, ou meio homens e meio peixes, Suméria, Babilônia, Oannes.
Tudo isso muito antes da doutrina cristã ser representada por arquétipos relacionados ao Peixe, dentro da Era de Peixes que Cristo inaugurava, nos próximos 2000 anos.

João é chamado a testemunha da luz, e se a luz é CRISTO, em sua essência de Verdade, João representa o seu Instrumento na Terra, seja João Batista, seja João Evangelista, seja qualquer alma que se habilite a essa função e missão de testificar da luz.

Assim sendo, o código da Vinci que insere o DEDO DE JOÃO apontando (geralmente) para cima, ou de outras personagens paralelas, pode indicar, além da ciência da ascensão (ciência do espírito, doutrina da verdade, o Hermetismo), a origem da humanidade nas estrelas, ou especificamente, na Estrela da Luz, o Pentagrama Vênus-Sirius.

O grande barco viaja nas águas da vida, e o homem animalesco, meio lobo, que o conduz, imperfeito e mortal, segue sua obra de transmutação, refinação, transformação do impuro no puro, do animal no angelical, do material no espiritual, até que alcança a meta, na Águia, o Espírito-Deus, o único Rei. e a união da alma mortal com o espírito imortal representa a transcendência final.

Outra analogia evidente: entre os quatro evangelistas, a águia era o animal que representava João (Mateus era o Anjo, Lucas era o Touro, e Marcos era o Leão).

Então, o barco conduzido pelo homem lobo, sobre as águas da vida, em busca do outro lado, a outra margem, a margem do espírito, é a direção apontada por João em todos os códigos anteriores a esta alegoria.

João evangelista foi o depositário do Gnosticismo, Hermetismo ou Sabedoria cristã pura, a doutrina única da luz, e Leonardo da Vinci é o humano com cabeça de lobo, assumindo sua imperfeição, tentando conduzir seu corpo físico (barco) para a outra margem, sobre as águas turbulentas da vida…

O vento sopra com força nas velas do barco, e mais uma vez, como nas outras obras analisadas nas partes anteriores deste trabalho final, a cena se move para a esquerda do objeto exposto (direita de quem vê a gravura): a via hermética, a via da esquerda, quer dizer, oculta, velada, marginalizada, satanizada pelo Clero.

Os quatro elementos se apresentam nessa imagem: água (o mar), ar (vento), a terra (o globo adiante) e o fogo (a luminosidade radiante da águia). Os quatro elementos são essenciais na composição do Ouro filosofal, a expressão mineral do quinto elemento.

O timão que o homem-lobo pilota tem a imagem da estrela de oito pontas, outro símbolo templário com origens nas profundezas do acervo da sabedoria antiga. Estrelas e rosetas com estas geometrias são comuns nas Catedrais góticas financiadas pela Ordem Templária. A casa dos Anunnaki.

A estrela-luz guia o barco, como a Rosa dos Ventos, para que a mente seja capaz de transpor a fronteira entre a matéria (visível) e o espírito (invisível). Stela Maris da Jornada das almas, a Virgem Mãe, Isis, a Luz, o Vaso da Luz que deu luz ao Verbo, que também é a luz, luz a guiar toda alma peregrina para fora deste mundo que já reconhece não sendo o seu mundo.

Estrela, bússola, rosa dos ventos, o mapa do espírito na doutrina tão procurada por Leonardo no barco de sua mente… essa mente onde ele reconhece existir um lobo, imperfeito, impuro, talvez indigno.

Talvez esse lobo na cabeça acuse uma sutil cobiça da parte de Leonardo, que ele detecta e secretamente estampa na alegoria, como um espelho de sua fraqueza. Não será o primeiro e nem o último que entra nessa senda movido mais or cobiça do que por ideal puro.

Essa luz é que guia a todo homem que vem a este mundo para o outro lado da vida, da margem, da fronteira… em busca da verdadeira realeza e poder, que a Deus pertence, e não aos reinos temporários e seus reis mortais e imperfeitos, tão cultuados na era moderna, como na antiga.

A luz brilha nas trevas, mas as trevas da ignorância, do materialismo e da ilusão, não a conheceram.
Luz de Ishtar, Ashtar, Astar, Aster, Astro, Star, Stella, Eteilla, Etoille, Vênus-Sirius.
Eu Sou a Estrela resplandecente da manhã! Cristo.

O barco pode representar, num sentido geral, tanto a vida como o corpo (e a mente) que o discípulo conduz, e a maneira como ele conduz, cercado de energias, dos quatro elementos, do vento que instrui sua mente com a ciência, das águas da vida transmutadas na raiz do corpo físico, da terra firme de um novo corpo e sentido existencial a frente, e do fogo e luz do Ser Supremo que é o alvo de sua busca, a Águia, Deus Pai coroado no Universo.

O peregrino precisa alcançar a nota certa de equilíbrio entre os quatro elementos vitais para que o barco consiga transpor a desejada fronteira. A Águia representa o alvo, a meta, a transcendência final, a própria pedra filosofal, o toque do espírito no corpo, o toque de Deus na matéria, enquanto o lobo é a imperfeição na cabeça (mente), com suas crenças e limitações teóricas, as quais, na maioria das vezes, bloqueiam as percepções superiores da alma que conspiram para a iluminação do discípulo.

O humano trabalha para que o espírito resplandeça!

É o humano que precisa se purificar, se transformar e se aperfeiçoar para reconquistar a perdida comunhão com o espírito, e cabe ao espírito guiá-lo e fortalecê-lo na tarefa. Porque Deus nunca se afastou do homem, mas foi o contrário. O Sol continua brilhando em seu trono central, mas o humano caído se fez rebelde e deu as costas ao Sol, caindo assim numa noite eterna de aflição, sofrimento e confusão, causados pelas ilusões que as sombras produziram em sua mente errática.

O barco, o timão, a bússola, o mapa, a estrela, enfim, tudo isso simboliza o conjunto dos instrumentos da Doutrina real que são acessíveis e utilizáveis ao homem a partir dos elementos do seu corpo, energia vital, sentidos, mais as orientações, regras e planos disciplinares para se trabalhar com estes elementos da melhor forma possível.

O guia continua sendo a luz da ciência de Hermes, que nada mais é do que a Verdade codificada nos termos da disciplina espiritual da auto-realização.

A Águia se torna o espírito do homem unido ao espírito de Deus, coroado em sua vitoriosa jornada rumo a Iluminação que significa libertação real.

E a pequena árvore plantada no meio do barco?
Um lugar muito estranho para uma árvore estar plantada. E a árvore é um dos temas mais recorrentes dos quadros e desenhos de Leonardo, faz parte do código.

A árvore em questão é uma pequena oliveira, e dela brotam dois galhos em destaque.

A madeira da Arca salvadora de Noé, ou da Arca da Aliança, ou mesmo dos ornamentos do Templo de Salomão… e da própria Cruz de Cristo, é, simbolicamente, a mesma, a madeira da árvore da vida. E os ramos gêmeos da Oliveira plantada dentro do barco (outra vez, o código dos gêmeos), são o princípio da polarização da energia vital e mental a ser realinhada e reequilibrada no espaço interno do Santuário, ou o forno alquímico, de modo a se obter o andrógino, que é a escultura final do Espírito Santo na finalização da reedificação.

As duas testemunhas, as duas oliveiras e o Castiçal com sete lâmpadas pelo óleo das duas oliveiras alimentadas, alegorias do “esqueleto” do Espírito divino que habita no homem, e que, tangente à realidade física, exige um trabalho complexo e delicado para manifestar-se plenamente no veículo, qual escultura do pensamento.

Daniel e os dois varões vestidos de branco, Zacarias e as duas testemunhas na visão do Anjo, as parelhas da Arca de Noé, os querubins gêmeos da Arca da Aliança e do Templo de Salomão, os dois irmãos pescadores do barco de Cristo, as duas testemunhas do Apocalipse 11:11. Códigos da morte, ressurreição e ascensão, como em João 11, Lázaro, e o 11:11 destacado por Tomé (gêmeos).

Talvez exista também um contexto profético nesse desenho, ilustrando que as duas testemunhas de Cristo (duas seriam os guias da Igreja (barco) no fim dos dias, levando-a para a Águia coroada, Cristo-rei, o espírito do Grande Júpiter).

CONCLUSÃO FINAL
E assim sendo, o Código da Vinci real, em toda a sua profundidade, só pode ser contemplado se fizermos uma varredura completa de sua obra, munidos do conhecimento básico de simbologia antiga, arquétipos, sabedoria gnóstica e Hermetismo grego-egípcio, Cabala, Astrologia e outros conhecimentos “proibidos” em sua época.

Caso contrário, nos perderemos em conjecturas e especulações sem fim, instigados pela criatividade de Dan Brown apoiada em teorias anteriores ao seu Best Sell, que se tornou mais popular do que exata, sendo mais um a entrar na corrente dos equivocados, porque o Mestre se deliciaria em ver tantos candidatos a decifrar seus códigos se perdendo nos labirintos da razão limitada, que só vê diante de si o óbvio.

E no final dessa jornada de 22 portais de conhecimento, compreendemos que o Código da Vinci não se concentra em Maria Madalena, apesar de esbarrar nela (e muito mais na Virgem Maria, Mãe de Jesus), e sim, no profeta João Batista, que Leonardo empregou para encarnar a personagem de Hermes Trimegisto, e assim, enganar a Igreja Católica de seu tempo… enganando até hoje, com sabedoria pagã adaptada ao cenário dos evangelhos.

A alma daquele que preparou os caminhos de Cristo não poderia ser alma pequena.
E não era… porque Leonardo o comparou a Hermes Trismegisto, o tutor das ciências do espírito, o patrono dos buscadores da luz, entre os quais o próprio Leonardo da Vinci se incluiu, talvez a alma mais sedenta pelos mistérios da luz que já pisou neste mundo.

E sua genialidade é o resultado direto de todo o seu desejo inesgotável por sabedoria.

FIM

Jonas Passos em 06.11.2020

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