Bilionários se preparam para o fim da civilização

Crise do coronavírus disparou oferta e demanda de ‘bunkers’ projetados para enfrentar o apocalipse, com os endinheirados gurus do Vale do Silício como principais instigadores.

No terceiro episódio da festejadíssima série francesa L’Effondrement (”O colapso”), um bilionário protagoniza uma corrida contra o relógio para pegar um avião exclusivo para fugir da falência da civilização tal como a conhecemos. O capítulo mostra o instinto de sobrevivência e a falta de escrúpulos desse membro do afortunado 1% da humanidade, uma reflexão que a ficção amplia no sétimo capítulo narrando a angustiante odisseia de uma mulher, ministra neste caso, tentando chegar a uma ilha onde pode encontrar refúgio. Apesar de ser uma série distópica, sua abordagem do comportamento das elites em um potencial colapso da civilização está longe da pura ficção científica. A crise do coronavírus, juntamente com a ameaça do terrorismo e da mudança climática, aumentou o medo das classes privilegiadas e cada vez mais pessoas apostam em estar preparadas para um possível apocalipse, disparando rapidamente a demanda por bunkers e refúgios. De Vale do Silício a Wall Street, passando por Marbella, é assim que os ricos estão se preparando para o fim do mundo.

“Isto é como um seguro de vida ou um seguro de carro, você espera nunca ter de usá-los, mas se tiver de fazê-lo, são muito valiosos”. Com estas palavras tenta racionalizar sua rede de refúgios subterrâneos Dance Vicino, diretor-executivo da The Vivos Group, uma das empresas líderes do setor e que ele prefere qualificar de “projeto humanitário épico de sobrevivência”. Por e-mail, Vicino confirma ao EL PAÍS o boom por desse tipo de serviço, aumentando as vendas em até 400% ao ano. Veículos de comunicação como o Los Angeles Times confirmam que as pesquisas e as vendas de refúgios nos Estados Unidos dispararam desde o início da crise sanitária: “Desinfetante para as mãos? Certamente. Máscaras? Está bem. Mas, à medida que o coronavírus se propaga, os ricos estão investindo de uma maneira muito mais extrema para evitar a doença: bunkers”.

O influente investidor em tecnologia e o cofundador do PayPal, Peter Thiel, é um dos principais instigadores dessa corrente profilática nascida em Vale do Silício. O alemão, que apoiou publicamente Donald Trump e que destruiu um veículo de comunicação (o site Gawker) como vingança por um artigo que afirmava que era homossexual, comprou um terreno de 200 hectares para seu refúgio apocalíptico na Nova Zelândia, país que considera “uma utopia”:”O que que se alinha melhor ou com a minha visão do futuro”, disse. Thiel conseguiu a cidadania neozelandesa em apenas duas semanas e muitos outros tentaram seguir seus passos. Nos dois dias seguintes à eleição presidencial de 2016 que deu a vitória ao imprevisível Donald Trump, as pesquisas dos norte-americanos sobre como conseguir a nacionalidade kiwi aumentaram 14% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mais de 13.000 solicitações foram registradas.

Embora donos de uma riqueza tão imensa que qualquer investimento —por mais louco que possa parecer— seja insignificante na demonstração de resultados, talvez os motivos por trás dessa crescente paranoia não respondam unicamente a uma questão meramente preventiva ou recreativa. John W. Hoopes, professor de Antropologia da Universidade do Kansas, diz no The New York Times que o sucesso da corrente responde à “fantasia hipermasculina” de que apenas alguns poucos escolhidos e suas famílias se salvarão do perigo iminente. “O medo vende melhor que o sexo. Se você pode fazer com que as pessoas tenham medo, pode vendê-las todo tipo de coisa e isso inclui os bunkers”, conclui. Vicino parece estar inscrito nessa estratégia de marketing. “As pessoas sentem que o inferno está chegando, da Coreia do Norte e do Oriente Médio até uma potencial Terceira Guerra Mundial com a Rússia e a China”, afirma, adiantando também futuras “pragas, asteroides ou o colapso econômico total”.

Bunker com piscina e luxo.

E por que criar a nova humanidade na terráquea Nova Zelândia podendo fazê-lo a partir do planeta vermelho? Precisamente, um dos sócios fundadores do PayPal ao lado de Thiel se erigiu como outro dos super-ricos mais obcecados em estar pronto diante do juízo final. Elon Musk, CEO da Tesla, não apenas vaticinou em várias ocasiões o fim do mundo, como pode se vangloriar de ter criado todo um império empresarial para tentar buscar uma saída ao possível apocalipse. “É inegável que desde a mudança climática (com a ênfase de Tesla em reduzir o uso de combustíveis fósseis) até a maligna inteligência artificial (com a Neuralink) e a ameaça de uma guerra global que desencadeie o caos (o plano de fuga para Marte da Space X), Musk está preparando uma parte da humanidade para o cataclismo vindouro e tentando evitá-lo”, disse o jornalista Jonathan Sieber depois de assistir a uma conferência do guru da tecnologia no festival South by Southwest em 2018. O fundador do Facebook, Mark Zuckeberg, tampouco foge desse utópico investimento financeiro e já em 2016 vários meios de comunicação publicaram que tinha construído um bunker perto de sua mansão em Palo Alto, Califórnia.

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