CANÇÃO DE AMOR À DIVINA

Virgem Mãe Santíssima, Abençoada seja a concepção do teu ventre! Alma celestial, que na condição de mais pura, atrai a virtude do Altíssimo sobre si, de cujo seio se levanta o Sol Supremo da Divindade, o Verbo realizador da Vontade do Todo-Poderoso! Descei dos nove céus, ó Urânia, e vinde habitar nos meus pensamentos.

Derrama em mim as tuas abundantes graças, purifica a minha alma pecadora com as lágrimas destiladas na fonte do teu amor. Deposita em mim a semente de luz que germina no calor do teu coração imaculado.

Ó Majestade da face pura pelas luzes do Sol vestida, és a beleza sublime esculpida pela Primeira Inteligência que intensamente te desejou e te fez gloriosa em tua sabedoria para reinar ao seu lado, como esposa e rainha, eternamente.

Ó formosa imagem a Deus semelhante, ó venturosa manifestação de vida incessante, ó infinita consagração do amor, vinde a mim em nome de todas as Nossas Senhoras que aparecem aos inocentes desde o início do mundo. Vinde para revelar o teu mistério, levantar o teu véu, rasgar o teu selo.

Fazei de mim o teu instrumento, porque meu anseio único é aspirar a ti, ó quintessência da felicidade! Sou teu filho, e te chamo pelo nome: Ana, Maya, Maria, Isis, ou simplesmente MÃE! As estrelas do céu, no abismo da noite, e as pérolas do mar no abismo das águas, que nunca te esconderam segredos, são testemunhas do teu amor imenso, porque estes dois infinitos somados não o superam: teu amor é a ponte entre eles.

Eu te invoco, Santa Cabalah, Torá incorruptível, Haguia Sofia, Coração de toda a divindade. Eu te clamo, castíssima primogênita do céu, Jerusalém dos anjos e dos espíritos bem-aventurados, paraíso das almas santas e puras como tu, ó diadema de santidade, és o belo arco-íris, a ponte entre o céu e a Terra, a aliança entre o homem e a mulher, entre Deus e a humanidade dolente.

Todas as esperanças são depostas em tuas mãos, ó arca bendita de salvação! Eu te suplico, ó santo graal da vida eterna, transbordante taça de felicidade, alimento dos eleitos.

És a perfeição em forma de mulher, a bondade em forma de compaixão e a supremacia na força da maternidade, e o mundo inteiro te rende louvores porque somente tu poderias receber a visita da Pomba em santuário tão puro e inviolado, que beijou o teu ventre para que céu e Terra testemunhassem o nascimento do Salvador, que emergiu de tuas entranhas como um Sol se levantando da escura e profunda noite.

És a canção mais linda de bem-aventuranças, a estrela mais brilhante de esperança, o templo mais elevado onde os anjos e os homens comungam o mesmo desejo que repousa na promessa que Deus cumprirá através de ti. Nesse templo, cujo teto é de estrelas, teu coração se abre aos devotos como porta que contempla um insondável oceano cujas ondas, as comoções do teu incessante amor, reverberam suas orações até o trono do Altíssimo, na face que sorri em tua mais inacessível interioridade.

Tu és o fundamento e a cúpula, tu és a estrutura do templo, a pedra angular, a ciência que o constrói e a devoção que o preenche: tu és religião sem palavras, devoção sem rituais, estesia que inflama nos espíritos asceses inefáveis, arroubos insaciáveis e conversões inexplicáveis.

Tu és a consciência real do poder que te cobre desde as alturas, administrando-o com suma maestria no universo dos seres, e tamanha perfeição, que se estende dos mundos para as estrelas e as galáxias, revelam apenas uma singela porção da preciosa luz que cintila em teu olhar de Mãe Infinita e Onipresente. Que essa luz fecunda penetre em mim e transfigure a minha alma, que experimentará o êxtase do nascimento de Cristo no tabernáculo do coração.

Janela sempre aberta, porta acessível, estrada de flores referta, minha alma deserta te procura, tamanha ternura: generosa é sempre a tua oferta! Teus olhos, portais do Paraíso, sereno convite do teu sorriso, que eu diviso entre prantos e suspiros. Campos Elíseos para os meus pés descalços, revela as cascatas de luz além dos meus passos, refrigera a minha alma! Canta em meus sonhos, amada minha, as melodias desse desejado jardim, envia teu querubim que me conduza a ti.

Musa dileta, privilégio das alturas, beijo do orvalho e frescor da alvura. Mais belo que o céu é o teu semblante adorável; mais profundo que o mar é o teu olhar invencível; teu sorriso evoca a paz celestial, e tuas palavras espargem no ar os aromas do paraíso, convidando os humildes e puros ao exercício da tua devoção.

Por fim, teu coração imaculado triunfará, e a Terra toda será inundada por essa onda de amor e paz que nasce nas praias do teu espírito maternal. E todo aquele que se banhar em tuas águas será batizado e receberá um novo coração para te amar sem limites.

Em toda luz que brilha, se esconde uma carícia do teu olhar; em todo filho que nasce, tu demonstras uma esperança viva ao mundo; por cada alma que se arrepende, uma pedra a mais é acrescentada à tua coroa. Os coros angélicos cantam hosanas ao teu esplendor: são flores de luz no teu jardim celeste, raios dourados bordando as tuas vestes, mas devolvem pouco a ti em resposta a tanta glória que de ti procede, e nos céus a tudo excede: por teus filhos, intercede, ó Santíssima!

Rosa do Empíreo, os arcanjos são tuas pétalas luminosas, o Filho é o teu núcleo perfumado e tuas raízes estão no Espírito Santo: o que é Deus, senão esse conjunto? Minha alma em teu ser é semente, ó solo fecundo de amor, rico em virtudes, pródigo em boas obras. As preces dos santos e seus rogos tantos são incensos que sobem à tua presença, na cúpula das estrelas, e tuas graças milagrosas descem como chuvas dadivosas.

A sensibilidade do amor produz em teu espírito infinito recursos inesgotáveis, e a prece sincera nos aproxima da sublime misericórdia que palpita em teu seio, da qual Deus te fez depositária. Com tuas lágrimas benfazejas, os anjos construíram uma escadaria de cristal que se eleva até a Casa Paterna: lava os meus pés nas águas da redenção, para que eu seja digno de subir a Deus contigo!

Tu és a Escada do céu, os anjos proclamam a tua glória entre as estrelas, que foram criadas para te adornarem, porque a noite é o manto da tua realeza, o universo é o espelho da tua formosura, mostrando aos nossos olhos um corpo místico cravejado de diamantes na seda escura: maior que a verdade que revelas é o mistério que ocultas!

Me torna semelhante a ti, condição única para que o meu nome seja perpetuado na memória de Deus quando as estrelas tiverem se apagado e o universo não mais existir. Em ti, minha vida se renova e a minha alma canta! Em ti, meus olhos contemplam a Face de Deus e meus ouvidos escutam as sinfonias dos céus. Em ti, amor e sabedoria confluem no grau máximo para que realizes maravilhas, prodígios e milagres!

Em ti, o Éden é o recesso do teu peito, ditoso regresso pelo qual venho e peço. Excelso regaço pelo qual canto, esplêndido abraço que espero tanto! Teu colo é meu laço, e dele não me desfaço jamais. Matriz dos espaços siderais, nutriz dos mortais e imortais, fautriz dos avais ao Êxodo que se aproxima, me anima na fé.

Se o terror da morte se dissipa ao teu simples olhar, invencível és, e tua brandura é a minha fortaleza. Teu mistério é minha certeza: Mãe propícia, deleite e delícia nas horas amargas, alivia minhas cargas. Me abraça na hora na hora da morte, o que é fraco em mim torna forte, minha consorte: sê minha coluna, minha estela, e escreve o meu sonho nela, realiza meus ideais.

Governa meu destino, em ti sou menino, te celebro neste hino. Pactua comigo este compromisso eterno que assino agora, cuja urgência me devora. Divina Senhora, rubor das Auroras, penhor dos contritos, consolo dos aflitos, vinde a mim nessa longa noite, suprime o açoite, abranda o castigo, permanece comigo.

Protótipo da divindade oculta, modelo de perfeição absoluta, castidade me faculta. Tu és a sagração do sublime ofício de Mãe, a estrela ascendente neste Vale de Lágrimas. Paixão divina, esperança matutina, vinde a mim, favorece minha sina.

Mãe Divina, manancial infinito de amor e graça, abençoa a minha alma. Em ti, sou campina verde, pradaria em flor, colina tranquila, estação do amor. Em ti, sou a onda que desliza no mar, sou a brisa que amacia a relva, sou o Sol e o Luar, sou o arvoredo da selva. Sou as estrelas faiscantes, sou a Alma do mundo vibrante, sou o infinito amor de agora como antes.

Em todas as Senhoras te reconheço: Nossa Senhora das Graças, Imaculada Conceição, Rainha do Rosário e Rainha da Paz. És a alma de minha alma, o alvor dos pensamentos luminosos e vigor dos sentimentos bondosos. Fonte inesgotável de misericórdia e perdão, és concórdia e união, redenção na feliz condição de tua Maternidade virginal.

Pentalfa matinal, acende teus cinco raios na minha testa, e o Cristo em meu peito gesta! Invade o meu ser, ó Divina, abrindo o caminho da Pomba, que há de reacender a sagrada chama no altar do meu peito. Floresce em mim como rosa mística de tantas pétalas quanto virtudes. E nessa plenitude, desabrocha e exala o aroma de uma espiritualidade genuína.

Ó Lucina, que tua luz serena me acompanhe nas solidões. Teu olhar, que anula as maldições, espante as aflições. Pelos portões, que me venham as tuas bênçãos. Ó ternura do afeto, reclama teu filho dileto, primor da inocência, juventude infinda, santa clemência que ao céu nos convida, árvore da vida, medicina das gentes, amor tão clemente que transcende a razão, e na convulsão da Terra açoitada pela Guerra, ó Luz Beatíssima, consoladora dos que sofrem, cobrí-nos dos ventos que soprem as narinas do Dragão.

No apogeu da tua luz, dama venerável, revela a trilha que ao refúgio conduz. No recesso do teu coração, meu refúgio é a oração, e na catedral do teu espírito, descanso tranqüilo, santuário festivo do qual não me esquivo, antes procuro dia e noite porque ali o açoite não entra, e atrás dos seus muros me encontro seguro.

Semeia em mim o jardim de tuas virtudes que tanto agradam ao Pai e põem o céu em festa. Faz do teu amor o meu pão espiritual e da tua luz a minha única religião.

No teu acalanto, magia transcendente, manto envolvente de encanto, voz esplendente que comove o santo e desperta o indolente. Rosa de Maio, Manhã de setembro, aos poucos me lembro… doçura excelente do mel, prazer divino que preenche o céu, nada em ti é amargura ou fel, e ainda que em tristura se apresente pelo pecado do mundo, o que quer que se invente de imundo não te toca, porque de ti a mancha se desloca como as sombras da luz. Deus soprou em ti pureza e perfeição, e tão grande te fez em condição quando inventou o amor em teu coração.

Liberta-me das correntes do pecado, mãe augusta, deusa venusta, do meu lado sê presente. Livramento do cárcere, contentamento de ser novamente, renascimento iminente. Cura-me das enfermidades, afasta-me das maldades, me inspira a caridade: porque tu és minha rainha, dedico-te agora a ladainha, que não é minha, mas dos anjos, e com eles, de elogios por ti me esbanjo:

“Virgem Maria, rogai por nós! Santa Mãe de Deus, Santa Virgem das virgens, Mãe de Jesus Cristo, Mãe da Divina Graça, Mãe Puríssima, Mãe Castíssima, Mãe Imaculada, Mãe Intacta, Mãe Amável, Mãe Admirável, Mãe do Bom Conselho, Mãe do Criador, Mãe do Salvador, Virgem Prudentíssima, Virgem Venerável, Virgem Louvável, Virgem Poderosa, Virgem Benigna, Virgem Fiel, Espelho de Justiça, Sede da Sabedoria, Causa da Nossa Alegria, Vaso Espiritual, Vaso Honorífico, Vaso Insigne de Devoção, Rosa Mística, Torre de Davi, Torre de Marfim, Casa de Ouro, Arca da Aliança, Porta do Céu, Estrela da Manhã, Saúde dos Enfermos, Refúgio dos Pecadores, Consoladora dos Aflitos, Auxílio dos Cristãos, Rainha dos Anjos, Rainha dos Patriarcas, Rainha dos Profetas, Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Mártires, Rainha dos Confessores, Rainha das Virgens, Rainha de todos os Santos, Rainha concebida sem pecado original, Rainha do Santo Rosário, Rainha da Paz: atendei-nos!”

Virgem Mãe Santíssima, me habilita no sacrifício, a via única que conduz ao Pai. Me entrega uma cruz, me veste de branco e coloca a Lua sob meus pés. Concede-me o sacerdócio do teu amor e o ministério da tua paz. Forjai-me com tua castidade, o escudo argentino contra os espíritos do Mal, e ensina-me a fé verdadeira, a espada dourada de todas as vitórias em Cristo. Me empresta asas e me guia ao deserto da purificação. Na penitência eu me aproximo de ti.

Coloca doze estrelas sobre minha cabeça, me veste de Sol e escreve teu Nome em minha testa, para que eu possa confessar no Tribunal de Deus, no dia do Juízo Final, que minha Mãe Divina concedeu-me a vitória! O exército dos anjos tem escrito o teu Nome no seu estandarte, e por ele marcham, e por ele vencem! Porque a tua vitória final, consignada por Deus desde o início, está próxima, quando haverás de esmagar a cabeça de Satanás sob teus pés: o universo inteiro, que espera por esse dia, gritará em júbilo a uma só voz, e todos aqueles que contribuíram para o teu triunfo serão convidados de honra nas bodas do Espírito com a Esposa Celestial.

Virgem pura, amor do meu amor, luz da minha luz, Sol de todos os meus ideais, lava a minha alma no sangue de Cristo, me batiza no poder de Cristo. Coloca meus pés na senda de Cristo, meus olhos na Causa de Cristo e, acima de tudo, meu coração no Amor de Cristo: porque em ti desejo renascer, não como o filho rebelde e mortal que volta ao pó da terra, mas como o obediente filho do céu, que o Pai espera de braços abertos.

Bendita luz de Maria, sede minha via. Do seio de Maria, virá a harmonia que sem ela não seria. Divina Alegria, magia do amor, universo em flor no nome de Maria, a Mãe do Salvador. Virgem Maria, sede meu penhor, com louvor eu te clamo nos rogos meus porque te amo, Maria, Mãe do Amor, a Graça de Deus!